04/12/2014

Você pode ser você mesmo

Quando você nasceu, que alegria, um garotão para jogar futebol com o pai. Vamos comprar uma bola, vamos pintar a parede de azul. Quando eu nasci, que alegria, uma menininha para ajudar a mãe com as tarefas de casa. Vamos comprar vestidinhos, vamos pintar a parede de cor de rosa. Você era o garotão, eu era a princesinha. Você sempre foi ÃO e eu, sempre inha.

Meus brinquedos coloridos e educativos, minhas ferramentas de borracha e blocos de montar foram aos poucos substituídos por brinquedos cor de rosa, bonecas e panelinhas. Você ganhava carrinhos e lego. Quando você desmontava um brinquedo, "que bonitinho, é curioso, vai ser engenheiro". Quando eu fazia o mesmo, "que feia, menina curiosa, quebrou, por que não vai brincar de casinha?". As brincadeiras que diziam que me cabiam não me permitiam muita criatividade. Meninas brincam de ser adultas, mães e donas de casa. Na melhor das hipóteses, éramos princesas, delicadas e passivas, esperando ser salvas. Você podia ser o que quisesse, não havia limites. Você podia voar e salvar o mundo aos 7 anos. Eu era olhada com desaprovação quando fazia um dinossauro atacar a casa da Barbie, ou brincava de deixar a boneca na creche enquanto trabalhava como espiã.

A você nunca foram ensinadas tarefas domésticas. Eu subia em um banquinho para alcançar a pia e ganhava vassourinhas de brinquedo. Você ganhava espadas de plástico e lutava contra dragões. Eu era repreendida por ficar suja e descabelada, por correr e falar alto, por sentar de perna aberta e fazer perguntas demais. Você não. Você era questionado quando ficava calado ou quando preferia uma atividade mais calma. Quando você dizia palavrões, seu pai ria. Meu primeiro palavrão quase me rendeu um tapa na boca.

Nas reuniões familiares, você brincava e se divertia. Eu tinha que pôr a mesa. Quando era pequeninha, aceitavam minha presença na "rodinha masculina". "Ela gosta do pai", diziam. "Toda menina é apegada ao pai", completavam. Com o passar dos anos, minha presença na sala ("dos homens") começou a incomodar e sempre me mandavam para a cozinha ("das mulheres"). Te perguntavam o que você ia ser quando crescer. Me perguntavam com que idade eu queria me casar e quantos filhos eu pretendia ter.

Quando comecei a namorar, acharam cedo, recriminaram os beijos em público e me disseram para não fazer sexo de jeito nenhum. Me lembraram que eu deveria me casar virgem. Ou ao menos "me guardar" para o "cara certo". Quando você começou a namorar, perguntaram se você usava camisinha e te alertaram para não engravidar a namorada e estragar a sua vida. Te incentivam a ficar com as meninas sem compromisso, a "curtir a vida" e a casar o mais tarde possível (ou nem se casar). Comigo, sempre foi o oposto. Me dizem para só ficar com alguém se quiser um relacionamento sério, para não ser "rodada" para não ficar "falada" e ainda me mandam me apressar, casar logo, "tá faltando homem no mercado", "vai ficar para titia", "você não quer ter filhos com mais de 40 anos". Te compraram uma Playboy na sua adolescência. Me disseram que masturbação era coisa de menino. Me impediram de usar anticoncepcional antes de eu fazer 18 anos.

Na escola, estranhavam meu jeito pra matemática e diziam que eu tinha um cérebro masculino. Nunca me sugeriram estudar exatas e, quando eu dizia que tinha escolhido engenharia, uma das primeiras coisas que me diziam era que eu seria a única menina da sala. Você sempre foi incentivado a escolher o que bem entendesse e ninguém duvidou de que você passaria no vestibular. Mesmo sendo uma das melhores alunas da sala, nunca confiaram completamente que eu passaria. Pelo menos não no curso que escolhi. Ainda hoje, sou aterrorizada por gente que diz que o mercado de trabalho vai me massacrar e que eu terei que "trabalhar como um homem" se quiser me dar bem na área que escolhi. Novamente, ninguém duvida da sua capacidade.

Às vezes, já no portão, volto para casa para trocar o short por uma calça, mesmo fazendo 40°C, para evitar ouvir obscenidades na rua. Nunca funciona. Você só tem que se preocupar se está frio ou calor, eu tenho que me preocupar se vão me respeitar. Você tem medo de ser assaltado quando anda à noite na rua. Eu ando sobressaltada o tempo todo e tenho medo de ser estuprada a qualquer momento. Você aprendeu que as mulheres servem para te servir. Eu aprendi que os homens servem para me subjugar.

Você fala de sexo numa boa. Eu sou sempre julgada. Te perguntam sobre sua carreira. Me perguntam se eu sei cozinhar. Você é perguntado se quer se casar e se quer ter filhos. Eu sou perguntada quando. Questionam como vou dar conta de trabalhar "para fora" e cuidar da casa e dos filhos. Se você lava a louça ou diz que pretende buscar seu filho na escola no futuro, você se torna um deus. Eu sou pressionada a parecer com as moças das revistas. Ninguém se importa com a sua barriga saliente. Eu tenho que ser uma super mulher. Você pode ser você mesmo.