12/02/2014

Andei pensando: abuso do ar condicionado

Quero começar esse post com dois fatos aleatórios logo de cara:
  1. Está calor para c******. 
  2. Eu odeio ar condicionado.
Ilustra linda da Mariana Valente.

Sudestinos e sulistas brasileiros sabem que a coisa anda feia por aqui e nordestinos, nortistas e centro-oestinos devem ter visto algo na televisão ou na internet. Não só andamos sofrendo com temperaturas exorbitantes (alô, cariocas, como anda essa sensação térmica de 57°C?), como estamos quase contratando índios com experiência em dança da chuva. Apesar do momento A Praça é Nossa, a situação é mesmo grave. Em Santa Catarina, o retorno às aulas foi adiado devido às altas temperaturas. O nível do Sistema Cantareira, que abastece a Grande São Paulo, caiu abaixo dos 20%. Várias empresas têm permitido a seus funcionários usar bermuda no trabalho, depois do caso do funcionário público que foi trabalhar de saia ter bombado nas redes sociais. Muitas cidades estão sofrendo com a falta de água. Essa que vos escreve tem passado mal quase diariamente. A criação de frango, a safra da laranja e tantas outras atividades estão sendo prejudicadas por conta do calor e da estiagem. Em compensação, fabricantes de sorvetes, ventiladores e aparelhos de ar condicionado estão deitando e rolando (como diria a minha mãe). Bem, aí chegamos ao segundo fato.

Não podemos fazer chover, mas podemos baixar a temperatura de um cômodo, de uma casa inteira e até mesmo do carro com esse aparelho "mágico" chamado ar condicionado. Prevejo - se é que já não existem - letras de funk ostentação sobre ar condicionado. Nas minhas timelines, há diversas menções ao famigerado: gente ostentando sua posse maravilhosa, gente desejando ardentemente o tal aparelho fantástico e até gente que confessa entrar em determinados estabelecimentos só para se refrescar um pouco. Acho tudo muito compreensível, dada a atual situação. Eu mesma ficaria muito feliz de ter um aparelho desses no meu quarto e poder dormir confortavelmente debaixo de uma macia camada de edredom. Mas voltemos à realidade.

Ar condicionado não é uma maravilha tão maravilhosa assim. Para começar, se a umidade relativa do ar já está baixa, o ar condicionado só faz piorar. Dá-lhe bacia com água, toalha molhada, hidratante e copo d'água para aguentar a situação. Também temos outro fato: ar condicionado é um aparelho sujo. Se não for limpo direito e com a frequência adequada, vira o festival da bactéria e até de insetos, no caso dos carros. Além de, muitas vezes, empestear o ambiente com um fedor insuportável. Ok, se o carro ou a casa forem seus, é só tomar as providências cabíveis, mas e o ar condicionado de onde você trabalha e/ou estuda? Do ônibus que você pega? Do consultório do seu dentista? Pois é.

Isso tudo já é bem incômodo, porém pode até ser compensado nesses dias de calor intenso. MAS - sempre tem um mas - é claro que não é só isso. Já disse por aqui que não sou muito fã de frio. Frio dói no fundo dos ossinhos (e da alma) (2013, ANALU). Não gosto de 36°C, mas também não gosto de 16°C. E, olha, essa parece ser a temperatura favorita dos abusadores do ar condicionado.

Se você olhar as últimas temperaturas para as três cidades onde estive nos últimos dias (São Joaquim da Barra, Ribeirão Preto e São Carlos), verá que elas foram bem altas, acompanhadas de sensações térmicas ainda maiores. Ainda assim, passei frio nesses últimos dias, nessas três cidades. Frio de arrepiar, bater queixo e doer no fundo dos ossinhos e da alma, tudo por causa do meu arqui-inimigo ar condicionado. Sabe, no inverno, pelo menos, eu estou preparada, com minhas excessivas camadas de roupa - porque sou friorenta mesmo. Mas, no verão, vindo das ruas de calor senegalês, obviamente estarei de short, regata e sandália. Resultado: viro um picolé e ainda tenho que encarar o choque térmico mais tarde.

Eu sei que os aparelhos de ar condicionado são inevitáveis e a tendência é que se multipliquem mesmo. Entendo que em diversas situações, eles sejam a melhor opção. Ainda assim, espero - talvez com um pouco de ingenuidade - que sejamos criativos e pensemos em alternativas melhores, menos impactantes para a nossa saúde e para o meio ambiente. Não é à toa que estamos sobrecarregando o sistema de energia elétrica. Eu sei que ele deveria ter sido mais bem projetado para atender a nossa demanda, mas também temos que parar para pensar se essa demanda não é excessiva. Talvez se nossas casas tivessem um projeto arquitetônico melhor teriam maior conforto térmico e o ar condicionado seria dispensável. Talvez se não nos importássemos com o cabelo despenteado, poderíamos simplesmente abrir as janelas do carro ao invés de ligar o ar. Enfim, existem opções e a criatividade humana é inesgotável, ao contrário dos nossos recursos naturais. Por que não usa-la?