04/09/2013

Outro Bicho de Sete Cabeças

A adolescência é a fase do drama, né? Nessa idade, tudo parece imenso, catastrófico ou maravilhoso. Esse exagero todo faz com que pensemos que a adolescência é dificílima de ser superada e alimenta o drama do "ninguém me entende". Eu já defendi muito, em blogs antigos, que os adultos (especialmente pais e professores) deveriam ter mais paciência com os adolescentes, compreender as complicações da fase pela qual eles estão passando e tentar se recordar de suas próprias dificuldades e assim, quem sabe, ser mais empáticos. Hoje, com minha adolescência próxima o suficiente para que eu resgate memórias com boa dose de exatidão, percebo que não é beeeeem assim. Sim, sigo achando que os adultos deveriam olhar mais para seus respectivos passados ao lidar com gente mais jovem, afinal, mesmo com muitas diferenças, eles passaram por situações semelhantes. Mas, hoje, vejo que a adolescência não é um bicho de sete cabeças. Pode ser assustador passar pela puberdade e vislumbrar o mundo adulto cada vez mais de perto, mas isso é apenas o começo. A adolescência é uma preparação para o que vem por aí: ser adulto, especialmente no começo, não é mole, não.

Foto: Gregor Morrill
Pode ser que minha geração realmente estenda a adolescência até os 30 anos, como já li por aí, e que eu ainda esteja vendo as coisas de maneira dramática e exagerada, ou ainda que veja meus problemas de hoje como piores simplesmente por esta-los vivendo nesse momento, mas sei que não é algo exclusivo meu. A maioria dos meus amigos, colegas e conhecidos na mesma faixa etária está passando pela mesma coisa, tanto é que esse texto não é inspirado somente nas minhas experiências, mas nas deles também.

Ser um jovem adulto é tão assustador quanto puberdade e vestibular, e não temos a adolescência para justificar nossos erros e atos de rebeldia. Não importa se você só entrou na brincadeira agora e mal conhece as regras do jogo, todos esperam de você uma postura adulta e responsável. As escolhas continuam nos assombrando. Sim, decidir-se por um curso que supostamente vai definir o resto da sua vida (spoiler alert: não) aos dezessete anos é complicado, mas aos vinte, as questões ficam ainda mais capciosas: se a escolha tiver sido acertada, a universidade sempre vai nos apresentar dezenas de oportunidades e escolhas a serem feitas, isso somente durante a graduação. Se a escolha não foi a melhor, a confusão é ainda maior e pode culminar na mesma decisão da adolescência, agora com a pressão de estarmos mais velhos e já termos desistido de um caminho escolhido anteriormente.

Acreditamos, quando adolescentes, que um diploma na mão resolve tudo. Não mesmo. O que fazer depois de formados? Pós-graduação? Trabalhar? Que área seguir? Que tal um ano sabático? E o dinheiro? Aliás, o dinheiro é uma preocupação constante. Depender dos pais já adultos pode ser bastante incômodo, tanto para eles, quanto para nós. Há quem já comece a ganhar uma graninha na faculdade, mas também há quem nunca gerou um centavo por conta própria e se sinta mortificado por isso (oi, eu).

Sair da casa dos pais é sempre um desafio e é bem comum virarmos nômades nesta fase da vida. Mora aqui, mora ali, mora sozinho, mora com Fulano, mora com um bando de gente... Tudo bastante complicado. Morar com gente desconhecida deve ser o caos, principalmente se você for como eu - que, felizmente, nunca tive que dividir apartamento com ninguém. Morar sozinho, por outro lado, também é cheio de complicações (que conheço bem!): cozinhar pra um é uma merda; faxinar e organizar tudo sozinho dá trabalho pra caramba e a solidão bate, mesmo pra quem gosta de ficar sozinho. Fazem falta a geladeira sempre cheia e as roupas e a casa que se limpam "sozinhos".

Aquela liberdade que nos prometiam aos dezoito anos não existe. Muitas vezes, continuamos reféns das regras dos pais, que têm dificuldade em compreender que agora somos adultos, principalmente se ainda dependemos deles e/ou vivemos sob o mesmo teto. Mais do que isso: estamos sujeitos às leis, aos professores, ao patrão e à falta de tempo e de dinheiro.

Além disso, como eu já disse, cobra-se de nós uma postura adulta e responsável com a qual não estamos acostumados. Mas essa não é a única cobrança. Cada um vai nos pressionar num sentido (ou em vários) e é melhor se acostumar: seu professor quer que você faça um mestrado, sua mãe quer netos, suas primas te perguntam do casamento (mesmo que você não tenha nem um/a namorado/a), e seu pai quer saber do primeiro salário (tudo hipotético e generalizadíssimo, por favor). E existe, ainda, aquela "obrigação" de se ter muita energia, sair todas as noites, ter uma vida sexual maravilhosa, assistir a todos os filmes e seriados, ler dezenas de livros, ser bonito e saudável e ter seu futuro todo planejado, afinal, você é jovem.

(E, se você for mulher, as cobranças são, no mínimo, dobradas.)