22/07/2013

Reflexões feitas sobre posts e blogs antigos

Foto: Melina Souza


Dia desses, usei o site Wayback Machine para revisitar alguns dos meus blogs antigos. É uma experiência interessante. Não é como ver fotos ou vídeos do passado, é mais como ler um diário (sem detalhes, sem segredos e com todo um filtro, claro). Você não se depara somente com sua aparência e memórias, você também fica cara a cara com suas opiniões, sua visão das coisas e a imagem que passava para as pessoas.

Me diverti e me surpreendi com posts do início do Sem Formol (que ficava em outro endereço) e do antigo Capricious. Me envergonhei de ter escrito determinadas coisas. Me orgulhei de ter escrito outras. Percebi como minha escrita melhorou e como minhas ideias amadureceram. (Acho que os blogs tiveram um papel importante nisso, principalmente na questão da escrita.) Pude revisitar memórias das quais eu já não me lembrava e rever o mundo com aqueles olhos um pouco mais jovens e um tanto mais sonhadores.

O Capricious e o Sem Formol "cobriram" a minha vida dos 15 anos até hoje. Infelizmente, não tenho acesso a todos esses arquivos, mas fiquei satisfeita com o pouco que pude ler, principalmente porque foi depois de um certo choque: reencontrei o meu blog dos treze e quatorze anos.

Eu já blogava há cerca de um ano quando fiz aquele blog. Não me incomodei com a aparência tosca da página de alguém que estava aprendendo um pouco de HTML sozinha e ainda não tinha Photoshop instalado no computador. Não me incomodei com os erros de português e a falta de coesão dos textos. Me incomodei com o conteúdo dos posts, ou com a falta dele. Me incomodei em ver como aquele blog refletiu o pior ano da minha adolescência. Me incomodei ao ver que aqueles textos não refletiam quem eu era, mas o enorme esforço que eu vinha fazendo para ser outra pessoa. Em 2004, eu tentei ser tudo, menos eu mesma.

Os meus treze anos (e parte dos quatorze) foram minha "idade média" pessoal. Me afastei de gente que eu gostava muito e que me fazia muito bem. Me afastei de um grupo de amigas com as quais eu me identificava e onde eu me sentia bem e acolhida. Fiz duas amizades que não são pessoas propriamente ruins, mas que nada tinham a ver comigo. Como toda adolescente, eu precisava me encaixar e me identificar. Nesse processo, eu insistia em ser igual a essas meninas, sem perceber que ser eu mesma era muito mais interessante.

Mas não foi só isso. Nessa época, minha mãe voltou a frequentar a igreja evangélica, bem como grande parte da minha família se converteu. Nesse processo, me incluíram. Eu era muito jovem, tímida e frágil para não ser influenciada. Eu me sentia obrigada a ir aos cultos e reuniões, por mais que me sentisse mal neles. Nunca consegui concordar com as coisas que me eram ditas ali. De certa forma, eu sempre fui feminista e não conheço nenhuma religião que não seja machista. Me impediam de pensar e questionar, queimaram meus livros do Harry Potter, jogaram fora meus brincos, policiaram minhas roupas e as músicas que eu ouvia. Eu achava que aquilo era o certo, por mais que me incomodasse. Eu me esforçava muito para me encaixar naquela situação, mas é claro que isso nunca acontecia. Eu me sentia frustrada e cansada e chorava quase toda noite. Isso só fazia com que todos me pressionassem mais, dizendo que esses meus "problemas" só seriam solucionados se eu fosse a todos os cultos, orasse muito e frequentasse todas as inúmeras reuniões da igreja.

Meus problemas passaram quando eu fui forte e parei de me deixar influenciar, quando eu admiti para mim mesma que aquilo não era para mim. Eu não sou uma pessoa religiosa. Eu nem mesmo acredito em Deus. Admitir e perceber isso fez uma diferença monumental na minha vida. Parei de frequentar a igreja e pude recuperar a Daniela que tinham me tirado. Pude voltar, aos poucos, a ser eu mesma e me sentir bem com isso. Foi libertador.
"Acreditar não é uma coisa que possa se decidir, como se fosse uma questão política. Não é pelo menos uma coisa que eu consiga decidir por vontade própria. Posso decidir ir à igreja e posso decidir recitar a novena, e posso decidir jurar sobre uma pilha de Bíblias que acredito em cada palavra escrita nelas. Mas nada disso pode realmente me fazer acreditar se eu não acreditar."
- Richard Dawkins
 
Um parênteses: não estou aqui criticando todas as igrejas evangélicas, nem generalizando o comportamento de seus fiéis, estou apenas contando o que aconteceu comigo, minha experiência.

Percebi, com certo desgosto, que aquele blog refletia esse meu desespero em ser alguém que não sou. Acho que é normal sofrermos esse tipo de coisa na adolescência, na ânsia de nos encontrarmos, de nos descobrirmos. Com o passar dos anos, felizmente, eu finalmente me descobri e me entendi. O Capricious e o Sem Formol me mostraram isso. Por mais que eu tenha cometido muitos erros, eu fui autêntica grande parte das vezes. E eu também mudei. Para melhor, acredito. Eu sempre assinalava isso nos meus posts antigos, falava de como eu vinha mudando e amadurecendo. Fico feliz de ter sido realmente verdade. Acredito que a Daniela que escrevia aqueles posts ficaria orgulhosa da Daniela que escreve este.

Eu não realizei todos os meus sonhos mirabolantes daquela época. Não fiz nenhum dos cursos que pretendia fazer. Não me tornei jornalista. Apesar disso, hoje estou muito mais certa do meu futuro do que eu imaginava. Passei no vestibular, o que era meu objetivo principal, mas não o fiz como esperava. Minha experiência foi muito mais interessante do que eu poderia prever.

Ao contrário do que eu esperava, Lari e Tety continuam na minha vida, tão presentes quanto possível. A Íris também, agora mais velha, mais quieta e mais companheira do que nunca. (Para quem não sabe, Íris é uma cocker.) Meus desastrosos relacionamentos amorosos do passado foram substituídos por um namorado que eu nunca esperei ter. Novamente, minha realidade superou minhas expectativas.

Muita coisa mudou nos últimos anos. Sempre me impressiono com meu amadurecimento quando comparo os posts atuais aos antigos. Fico feliz em ter me tornado quem eu sou e espero que eu possa dizer o mesmo quando, daqui há alguns anos, eu reler os posts de hoje.
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