12/05/2013

Onipresente

Quando eu era bem pequena, antes mesmo de entrar na escola, eu tinha uma rotina matinal bastante gostosa. Me levantava cedo, pegava meu paninho (todo bebê tem um paninho) e me arrastava para cima do sofá coçando os olhos. Passava Bom Dia & Cia com a Eliana, na época. Minha mãe me trazia uma mamadeira. Uma das minhas lembranças mais antigas é justamente o sol que entrava pela janela da sala batendo no fundo da mamadeira nessa época. Depois que o programa terminava, eu voltava para o meu quarto, que já estava completamente mudado: janela aberta, sol entrando, cheirinho de faxina, cama arrumada e uma troca de roupa esperando para ser vestida.

Minha infância foi marcada por momentos assim, coisas simples que me faziam muito bem e das quais sinto muitas saudades. Era delicioso entrar no quarto arrumadinho depois de assistir meus desenhos animados, assim como era super gostoso chegar em casa depois da escola, sentir o cheiro da comida e ouvir o barulho das panelas na cozinha. Muitas vezes, quando ia me trocar depois da aula, me surpreendia com presentinhos em cima da minha cama. Livrinhos, coisinhas de papelaria, acessórios de cabelo e toda a sorte de tralhinhas que eu amava. (Aliás, ainda amo.)

Também eram especialmente deliciosos aqueles dias em que minha mãe me surpreendia com suas cabaninhas feitas com um lençol estrelado ou as casinhas de caixa de papelão que rendiam muitas e muitas horas de brincadeira e muitos pedidos de "mãe, posso dormir na cabaninha?".

Quando eu ficava doente, acreditem, era uma farra. Ao menor sinal de nariz escorrendo, eu já torcia para piorar um pouquinho e poder tomar Melhoral Infantil (que, na época, vendia até em bar) e faltar da aula para assistir aos desenhos que passavam de manhã. Nestes dias, eu era especialmente mimada. Eram batatas fritas, bolos de cenoura, bolachinhas de nata e presentinhos para distrair. Eram tardes debaixo do cobertor comendo bolinho de chuva e assistindo à Sessão da Tarde. Eram visitas das avós que eram notificadas imediatamente pela minha mãe sobre meu estado gripal. Minha mãe conseguia transformar qualquer resfriado num natal.

O maior motivo do mimo em forma de comida nas gripes era o fato de eu ser uma criança muito chata para comer. Tive anemia, comi muito bife de fígado e tomei muito Biotônico Fontoura. Dei muito trabalho para minha mãe, que escondia legumes em bolinhos de arroz e tinha que me convencer de que comer nuggets todo dia no almoço não era uma opção. Eu mordiscava as beiradas dos cubinhos de caldo Knorr; roubava o recheio das bolachas Passatempo e devolvia o resto para o pacote; e tirava a goiabada do centro das bolachinhas de nata.

Como não tenho irmãos e nem sempre podia ter a companhia de amiguinhos e dos meus primos, minha mãe brincava muito comigo, me fazia companhia assistindo desenhos animados e lia muito para mim antes de eu ser alfabetizada. Ela me ajudava com os deveres de casa, nunca me deixava brincar ou ver TV antes de terminar minhas obrigações e me ensinou desde cedo a recolher meus brinquedos antes de dormir. Ela recebia meus amigos com todo o carinho mundo, se preocupava quando eu saía sozinha e ligava para dar bronca quando eu me demorava. Ela ia a todas as reuniões de pais e mestres, me parabenizava pelas notas boas e tentava entender o porquê das notas ruins. Ela me ensinava a lavar louça e a cuidar da casa, me deixava ajudar a enrolar os brigadeiros e passar para ela as ferramentas para consertar o chuveiro e me lembrava sempre de que ela queria que eu fosse uma mulher o mais independente possível. Ela me cobria antes de dormir e fazia "ui, ui, ui" quando estava frio e eu juro que aquele misto de carinho com cócegas melhorava o tempo instantaneamente. Ela me levava para tomar sorvete depois do dentista porque "o gelado ajuda" e tem um radar de "filha doente" impecável. Ela me ensinou a subir em árvore, passava Merthiolate nos meus muito ralados e insistia para que eu fosse no supermercado sozinha para perder a timidez. Ela me ajudava a fazer coleções, embarcava em todas as minhas loucuras e organizava verdadeiras forças-tarefas para juntar tampinhas de Coca-Cola para eu trocar por brindes.

Minha infância foi maravilhosa e grande parte disso é graças a ela. Minha mãe esteve presente na maioria das minhas lembranças de criança e entendo hoje sua angústia ao perder o protagonismo no meu cotidiano. Mas mesmo que não estejamos sempre juntas e que com o tempo eu me torne cada vez mais autônoma e independente, minha mãe sempre será onipresente na minha vida. Seja no meu gosto pela leitura, nos meus lábios finos ou na minha mania de fazer drama.

Obrigada, mãe.