26/03/2012

Livro versus Filme: Entrevista com o Vampiro

ATENÇÃO: Esse post pode conter spoilers.

Foto tirada no último dia de leitura, com direito à mantinha combinando com a capa.
152 dias depois, cá estou eu para fazer mais um post da tag Livro versus Filme. Acontece que, nesse meio tempo, não li nenhum livro que tivesse sido base para um filme. Até encontrar um Entrevista com o Vampiro antiguinho sabe Deus pertencente a quem que apareceu no meu quarto. Apesar de um "clássico", nunca o havia lido nem tido interesse. Não sou dada a essas histórias de vampiros. Mas não sou de desperdiçar livro que me vêm às mãos gratuitamente. Ao menos que seja religioso ou de auto ajuda. No final das contas, gostei bastante do livro e até dei 5 estrelas no Skoob e presenteei a Teté com um exemplar bonitão que me custou muitas horas de busca nas livrarias ribeirão-pretanas e virtuais. Recomendo a leitura para quem gosta de histórias fantasiosas, diferentes e criativas, para quem curte essa coisa vampiresca mas quer qualidade (e aqui eu alfineto a Stephenie Meyer mentalmente). Além do mais, o livro tem um bônus: foi traduzido por ninguém mais ninguém menos que a genial Clarice Lispector.

Sem mais delongas, eis a sinopse:
Uma história que começa com a ousadia de um jovem repórter ao entrevistar Louis de Pointe du Lac, nascido em 1766 e transformado em vampiro pelo próprio Lestat, figura apaixonante que terminará, ao longo da série, arrebatando multidões como cantor de rock. Louis, esse vampiro que se recusa a livrar-se das características humanas e aceitar a crueldade e a frieza que marcam os vampiros, continua a contar a história desde o início. É um mundo de uma fantasia impressionante, um mundo gótico, romântico, esse criado por Anne Rice e traduzido por Clarice Lispector. O texto da autora americana não poderia ter melhor intérprete, talvez mesmo cúmplice.
Aliás, Entrevista com o Vampiro é só o início de uma série chamada Crônicas Vampirescas. Eu, que já sabia do segundo livro, acabo de descobrir, pesquisando para esse post, que são dez livros no total. Eu fiquei cheia de vontade de ler o segundo, chamado O Vampiro Lestat. Então, pessoas, já sabem o que me dar de aniversário.

Bom, mas o post não é apenas sobre o livro, não é mesmo? Então, vamos ao filme. Primeiro, ao assistí-lo temos que ter em mente que ele é de 1994 e, portanto, os efeitos especiais são bem ruinzinhos (eufemismo, oi) perto dos efeitos de hoje. O elenco é bastante bom. Brad Pitt faz o papel de Louis (o vampiro entrevistado e parte narrador da história) e Tom Cruise faz o papel do famosíssimo e popstar Lestat. O outro destaque do elenco seria o Antonio Banderas mas eu, honestamente, odiei a interpretação dele e achei o Armand do filme um vampiro bem menos interessante do que o do livro. Mas, calma, não comparemos livro e filme ainda. Falta outro destaque do elenco: Kirsten Dunst, com seus 12 anos, que interpreta um dos personagens mais interessantes da história: a vampira Cláudia. Enfim, dêem uma olhada no trailer.


Leitores assíduos têm o péssimo hábito de criticar duramente filmes baseados em livros justamente por aqueles não serem extrema e completamente fiéis à história destes. Mas, convenhamos, é impossível fazer um filme 100% fiel a um livro e, caso fosse feito, não sei se o resultado seria bom. São mídias diferentes e, portanto, a história tem que ser adaptada para o cinema.

O livro, obviamente, sofreu suas adaptações e modificações. Não sei bem se algumas delas eram assim tão necessárias, mas acho que o resultado final foi bacana. Logo no começo da história, a vida "mortal" de Louis é contada de forma bem discrepante. No livro, ele mora com a mãe e os irmãos e, diante da morte do irmão, pela qual se culpa, perde a vontade de viver e acaba, por fim, caindo nas mãos de Lestat. No filme, ele é casado e tem uma filha e, diante da morte das duas, etc etc etc. Depois disso, a história se segue. Eu tenho uma impressão diferente de Lestat a princípio. No livro, tenho mais medo; no filme, nem tanto. Não sei se é coisa minha. Nessa primeira parte, que se passa na fazenda de Louis, talvez para cumprir um número x de minutos, certa parte da história, referente a uma família que vive em uma fazenda próxima, é ignorada no filme. É uma pena pois perde-se uma personagem importante, Babete, paixão de Louis com a qual ele nunca poderá se relacionar por ser vampiro. Perde-se com isso também alguns conflitos internos do personagem, que abomina sua condição de vampiro e a necessidade de matar pessoas. Além disso, outro personagem é ignorado no filme: o pai de Lestat. Nesse caso, perde-se parte da história de Lestat e ignora-se um dos conflitos entre Lestat e Louis: a implicância que aquele têm com os livros e o apego à vida mortal deste. Provavelmente para suplantar essas perdas, uma cena mais curtinha de uma festa é inserida no filme e não existe no livro. É uma cena bem interessante e levemente divertida, conferindo outras nuances ao filme de terror/suspense.

Na segunda parte, que se passa na cidade de Nova Orleans, o filme é mais fiel ao livro, embora também ignore uma passagem interessante e possua algumas pequenas e insignificantes diferenças. Depois dessa parte é que vem a grande mancada do filme, na minha opinião. A viagem dos personagens Louis e Cláudia pelo Leste Europeu é emociante e aterrorizante, mas no filme é completamente ignorada. Um spoiler: no livro, existem vampiros de um tipo muito interessante (não conto qual) na Europa Oriental, mas no filme, eles dizem que não encontraram nenhum. Acho uma pena, porque gostaria muito de ver essa parte da história no filme e ela simplesmente não existe. Apesar disso, compreendo que, talvez, o filme ficaria muito longo caso eles o fizessem.
A parte seguinte se passa em Paris. Novamente, o filme é fiel na medida do possível. Algumas cenas sofrem modificações leves, sem grandes prejuízos. Algumas cenas são cortadas ou suplantadas por cenas mais curtinhas e algumas coisas ficam levemente mal explicadas, mas sem problemas. Uma cena teve uma modificação que me incomodou. Ao invés de uma luta corporal entre vampiros, há uma cena que beira o patético em que o vampiro Santiago faz mímicas para incomodar e confundir Louis. Bem sem graça. Outro ponto fraco dessa parte do filme é o vampiro Armand. É um personagem bastante interessante e recheado de peculiaridades, mas que foi fracamente representado pelo Antonio Bandeiras, na minha opinião. Nessa parte do livro, especialmente, não há muito o que cortar, então a história avança rápido demais, sem grandes explicações e sem dar muita atenção aos personagens secundários como a vampira Madeleine ou o menino humano que vive no quarto de Armand.

O livro foi escrito na década de 70 e o filme gravado na década de 90, e ambos consideram como presente o ano em que foram produzidos. Assim, o presente de livro e filme são ligeiramente diferentes, o que não faz muita diferença afinal, já que a maior parte da história se passa nos séculos XVIII e XIX.

Os finais são diferentes! Calma, não contarei o que acontece, mas lhes asseguro que são diferentes. Eu gosto de ambos, mas devo confessar que o do filme me agradou mais.

No final das contas, filme e livro são ótimos. O roteiro do filme é uma ótima adaptação e o filme é emocionante e bem feitinho, além de contar com excelentes atuações. E tem sempre aquele impacto que o áudio e a imagem faz na gente. Se você não gosta de ler, mas adora um filminho e curte um terror "aterrorizante mas que te deixa dormir à noite", pode sair caçando para download ou na TV. Eu gravei na Sky, acho que passou em um dos canais da HBO há algumas semanas.

Mesmo tendo adorado o filme, tenho que nomear o livro como "ganhador". A história é incrível e muito bem escrita, vale a pena ler e curtir cada detalhe, entender melhor o que pensam e o que sentem os personagens, aquilo que o filme não proporciona muito bem. Aliás, eu recomendaria fazer o que fiz: ler o livro e depois assistir ao filme e ter ambas as experiências.

Então, se você se interessou, eu recomendo muito. Por ser um livro velhinho e com poucas edições, é mais fácil encontrá-lo em bibliotecas e sebos do que em livrarias. Eu recomendo fortemente o Estante Virtual e o Livra Livro.