29/01/2012

Volta às Aulas: Pobre Matemática!

Em um almoço de família, meu primo de 13 anos, entrando para a 7ª série (ou 8º ano) agora em 2012, manifestou sua vontade de viajar de avião para São Paulo. (Devo registrar aqui que minha família não é das mais ricas e viajar de avião está longe de ser algo comum para nós.) Meu pai aproveitou o ensejo para praticar um pouco do que chamo da psicologia do seu Vilmar - que funcionou bem comigo na infância. Ele disse ao meu primo que se ele estudasse bastante, conseguiria um bom emprego e teria dinheiro o suficiente para viajar de avião no futuro. A frase foi ligeiramente ignorada e o assunto prosseguiu. Meu primo perguntou quanto duraria a viagem, já que, de ônibus, leva cerca de 5 horas. Imaginava que durasse por volta de uma hora. Meu pai discordou, disse que era bem mais rápido e sugeriu: "Vamos testar a matemática!". Careta. "Se um avião faz 800 km em uma hora, e daqui a São Paulo são 400 km, quanto demora?" Mais careta, negação com a cabeça. Ele não sabia, ao que eu respondi. O assunto mudou de rumo e curtimos o resto do almoço.

Não vim discutir o sistema educacional brasileiro - levando em conta que meu primo sempre estudou em escola pública. Também não quero discutir os motivos que o leva a não se interessar pela escola, é algo muito pessoal e essa exposição é desnecessária para este post.

Esse episódio me levou a pensar em um assunto que sempre tive vontade de escrever sobre por aqui. A careta. Aquela do primeiro parágrafo quando se propôs testar a matemática. Aliás, esqueci de comentar que esse episódio é recorrente. Acostumado a ser atormentado para me tomar a tabuada, meu pai insiste em questionar meu primo com coisas da escola mesmo sabendo que a resposta geralmente será uma careta e um negativo envergonhado com a cabeça. Ele talvez tenha, assim como eu, a esperança de que a expressão mude e se conquiste uma resposta.


Eu entendo e não entendo, ao mesmo tempo, o problema das pessoas com a matemática. Primeiro, encaremos, você precisa de matemática. Você não precisa saber calcular limite (ao menos que tenha cálculo no seu currículo), mas tem a vida muito facilitada se saber fazer operações simples. Aliás, matemática não se trata somente de números. É lógica, é raciocínio. Sabê-la não só te ajuda a verificar o troco no mercado, como te ajuda a resolver problemas no seu dia-a-dia. A matemática é fundamental. Não é à toa que a aprendemos desde pequeniníssimos na escola e é a principal disciplina, junto com língua portuguesa (♥).

Eu entendo que matemática não é fácil. Quer dizer, ela tem níveis e níveis de dificuldade. É por isso que começamos aos poucos. Ela vai complicando, mas nosso nível de conhecimento tem que acompanhar esse desenvolvimento. Também entendo que há pessoas com mais facilidade para a coisa. E entendo que há pessoas com transtornos de aprendizagem. Mas, já que tocamos nesse assunto, só quero fazer um comentário sobre um outro primo meu, da minha idade. Ele teve (ou tem, não sei ao certo como funciona) déficit de atenção. Hoje ele é um ótimo aluno e faz engenharia na USP, tal como eu. Pelo que sei, muitos distúrbios de aprendizagem podem ser driblados por bons professores, psicopedagogos, psicólogos e os próprios pais.


Há algum tempo atrás, li sobre um distúrbio chamado discalculia na revista Época. Achei pertinente comentar sobre isso aqui. A discalculia impede que a pessoa compreenda os processos matemáticos. Não se trata apenas da dificuldade em entender e solucionar problemas e fazer cálculos. O discalcúlicos têm problemas, por exemplo, para olhar as horas no relógio. Mas mesmo a discalculia, pelo que entendi, pode ser remediada. (mais informações aqui)

Se até mesmo pessoas com transtornos de aprendizagem sérios como a discalculia podem aprender matemática, porque alguém "normal" não poderia? A matemática é fadada ao preconceito. É tida como chata e difícil. Chatos e difíceis são aqueles que não se dão uma chance de crescer, na minha opinião. A matemática pode não ser sua matéria favorita, mas é importante no seu dia-a-dia. Pode até ser importante na sua profissão. Já viu algum concurso sem matemática? Algum processo seletivo sem matemática? São raros.


Então, o que quero com esse post é fazer um apelo. Odeio apelos, soa ridículo, não é? Mas fazer o quê, acho que a palavra é essa mesma. Se você tem filhos ou alguma influência na educação de uma criança, tente incentivá-lo a gostar de matemática. Ele só tem a ganhar. Se você ainda está no colégio e não gosta de matemática, tente deixar o preconceito de lado. Não é difícil, só exige alguma dedicação. Eu mesma tive minhas dificuldades, nunca fui nenhum gênio. Apanhei muito nos primeiros anos de escola. Se tinha mais facilidade no ensino médio é porque ralei muito quando era bem pequena. Gênios são poucos, meu amigo. Espertos são aqueles que estudam!


imagens: We♥It