10/01/2012

Menina do bico

Créditos: Wendy. Flickr: carolinabird

Conheço essa menina desde que eu me entendo por gente. Ela é um pouco nova do que eu. Como nossos pais são amigos, nos encontramos desde bem pequenas mas nunca nos tornamos amigas, mesmo com a constante tentativa de nossos pais nos aproximarem. Aliás, acho isso bem chato, essa coisa de forçar amizade entre os filhos só porque eles têm mais ou menos a mesma idade. Mas não é esse o assunto desse post.

Desde pequena, nos encontros entre nossos pais, somos forçadas a interagir. O que nunca acontecia quando éramos crianças. Não me lembro ao certo o que acontecia, só sei que não relacionávamos. Lembro de ouvir muitas broncas do meu pai por não incluir a tal menina nas brincadeiras e conversas, por não me esforçar o suficiente.

Na adolescência, quase não nos vimos mais. Apesar de nossos pais continuarem amigos, ela não mais acompanhava os pais dela como eu fazia. Assim, nos encontrávamos raras vezes e trocávamos apenas um "oi". Isso quando ela estava acompanhada do pai, da mãe ou do irmão. Quando estava sozinha, simplesmente me ignorava. Eu imaginava que tudo aquilo fosse culpa minha, da minha timidez, da minha falta de jeito para puxar conversa, de não ter me tornado amiga dela na infância... Também imaginava que, talvez, não tivéssemos quase nada em comum, nenhuma afinidade.

Há algum tempo, venho seguindo-a no Twitter e no Facebook. Acompanhando as suas muitas atualizações, descobri uma menina superparecida comigo. Ela gosta de fazer palhaçada com seus amigos, escreve coisas engraçadas, adora uma ironia e tem gostos muito parecidos com os meus. Daí percebi que a falta de afinidade não era o problema. Decidi tentar interagir, comentei, curti, retwittei. E, na primeira oportunidade, tentei manter um diálogo.

Foi há algumas semanas. Saímos eu e meus pais, ela e a família dela. Como eu já disse, não sou boa para puxar assunto mas eu tentei, à minha maneira, interagir com ela. Comentava os assuntos da mesa, fazia perguntas e nada. A menina me olhava, escutava e voltava os olhos para seu coquetel ou a tela do celular. Ela passou todo o jantar enviando mensagens de texto para a melhor amiga, uma menina super simpática e falante com quem tive oportunidade de estudar. Por mais que a simpatia exacerbada da amiga dela tenha me irritado muitas vezes nas aulas de matemática, prefiro alguém assim a ela, praticamente um zumbi. Suas únicas palavras eram dirigidas ao pai, à mãe ou ao irmão. Geralmente, comentários mal educados e cheios de mal humor. Comigo, meu pai e minha mãe, ela era monossilábica. Se é que esse pode chamar aqueles grunhidos de sílabas.

Por fim, voltei para a casa com um misto de incômodo, raiva e frustração. Logo passou. A culpa não era minha, nunca foi. Todo aquele sentimento que vinha desde a infância acabou. Afinal, eu já deveria ter percebido: minha timidez nunca foi impedimento para que eu fizesse amizades. Eu não era a menina mais popular da escola, mas me relacionava com as outras pessoas. Aprendi a superar a timidez em nome da boa educação. E, naquela noite, superei minha timidez e falta de vontade com ela pelo meu pai, que gosta tanto do amigo. Mas ela, me parece, se acha muito superior, muito importante, muito inteligente para interagir com as outras pessoas. Por mais que ela saiba que aquela pessoa - no caso, eu - tem tanto a ver com ela, mais talvez do que sua melhor amiga tagarela. Não entendo o que leva alguém a ter tanta má vontade, a fazer tanto descaso, a ser tão mal educada. Talvez o problema seja comigo e com a minha família. Mas tenho sérias suspeitas de que o problema é a menina do bico*.

* Era como eu a chamava quando criança, por estar sempre emburrada. Eu já deveria ter percebido o sinal.

PS: Agora, finalizando esse texto, logo depois de dar os retoques finais no post sobre o livro da Martha Medeiros, me lembrei de uma crônica em especial, Os Ausentes, que fala de gente assim como a menina do bico.
"... acho um desrespeito quando uma pessoa faz questão de demonstrar que não compactua com a ocasião. São os casos daqueles que se emburram em torno de uma mesa de jantar e não fazem a menor questão de serem agradáveis. Pode ser num restaurante ou mesmo na casa de alguém: estão todos confraternizando, menos a 'vítima', que parece ter sido carregada para lá à força. Às vezes, foi mesmo. (...) Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. (...) Esteja! Se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. Melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada."
Martha Medeiros