07/11/2011

#noshuffleday: Meus Caros Amigos

Hoje é no shuffle day! Desde minha primeira participação (em 2009), não falei mais sobre o assunto aqui no blog. Não foi por falta de vontade ou de tentativas. Sempre que me lembrava de fazer, a primeira segunda-feira do mês já tinha passado e a próxima estava longe, daí eu me esquecia novamente.

Para quem não está entendendo nada, vou explicar. O no shuffle day acontece sempre na primeira segunda-feira do mês. É um dia para desligar o shuffle (aleatório) do seu player e se dedicar a um álbum específico. Acho o máximo! Desde que comecei a baixar músicas, raramente me dedico a um álbum específico. Ultimamente, como tive que trocar meu HD e perdi todos os meus arquivos (e tenho preguiça de baixar tudo de novo), tenho ouvido basicamente os poucos CDs que (ainda) tenho. Quase todo dia é no shuffle day. Mas hoje, como é oficial, decidi vir compartilhar com vocês o que escolhi.

Pensei em escolher o álbum novo do Chico (já falei dele por aqui) mas a maldita Rádio UOL tirou o CD de lá! Não sei porque, mas ele simplesmente sumiu. E como nenhuma alma boa me presenteou com ele ainda, tive que ouvir outro álbum. Então, me decidi pelo Meus Caros Amigos, também do Chico Buarque.

Meus Caros Amigos é (um LP) de 1976. Eu o tenho em CD, de uma coleção do Estadão, Grande Discoteca Brasileira. Meu pai viu na banca e me comprou. Se eu soubesse antes, teria comprado (quase) a coleção toda, que é maravilhosa. Mas, enfim, voltemos ao álbum. Só por curiosidade, quando ele foi lançado, Chico tinha 32 anos (sendo 11 de carreira), era casado com a Marieta Severo e já tinha as três filhas. Além disso, o álbum foi lançado em meio à ditadura militar e, é claro, tem referências ao assunto e músicas de protesto extremamente bem escritas. Outro assunto muito presente na música é a mulher, seu papel na sociedade, sua emancipação crescente na década de 70, a ascensão do feminismo, etc.

Para quem se interessar, vou colocar aqui alguns curiosidades sobre cada faixa.

Meus Caros Amigos - Chico Buarque
(1976)

1. O Que Será (A Flor da Terra) - com Milton Nascimento - encomendada pelo diretor Bruno Barreto para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos; tem três versões; é inspirada em Cuba (que Chico conheceu por fotos do jornalista Fernando Moraes neste mesmo ano).

2. Mulheres de Atenas - encomendada para a peça Mulheres de Atenas de Augusto Boal, parceiro de Chico na composição; é claramente irônica e visa debater o papel da mulher na sociedade; ao contrário do que certos idiotas algumas pessoas pensam, a música não é machista, muito pelo contrário.

3. Olhos nos Olhos - tem eu lírico feminino e fez sucesso na voz de Maria Bethânia (minha versão favorita); novamente discute a emancipação das mulheres; Chico diz que é um "tapa na cara" principalmente por causa do verso "quantos homens me amaram bem mais e melhor que você".

4. Você Vai me Seguir - foi composta em parceria com o cineasta Ruy Guerra; tem uma participação maravilhosa do MPB4; é parte da trilha sonora da peça Calabar; novamente foca na mulher; a letra é basicamente a história de um relacionamento com um desfecho impressionante.

5. Vai Trabalhar Vagabundo - composta para o filme homônimo de Hugo Carvana; ilustra a vida do operário/trabalhador brasileiro e, é claro, é repleta de críticas sociais.

6. Corrente - talvez seja a música que mais referência à ditadura militar no álbum; a expressão "um samba bem para frente" faz referência à marchinha "Para Frente, Brasil" e a campanha "Este é um país que vai para frente" do governo militar; "o samba é um universo paralelo que recende ao mesmo concretismo pavimentado em Construção, de 1971" segundo Ricardo Moreira, e de fato essa semelhança com a estrutura de Construção e essa questão do concretismo é notável.

7. A Noiva da Cidade - foi composta com Francis Hime para o filme A Noiva da Cidade; faz referência clara às canções de ninar, como na frase "quanto descuido o dessa moça que papai tá lá na roça e mamãe foi passear"; fala de um moça distraída e ingênua, talvez bastante jovem, que não têm noção de sua influência sobre os homens da cidade.

8. Passaredo - ouvi essa música pela primeira vez no colégio quando tinha meus 8 anos e adorei; também foi composta para o filme A Noiva da Cidade com Francis Hime; cita dezenas de espécies de pássaros da fauna brasileira, pesquisados em dicionários científicos; os pássaros representam os cantores e artistas brasileiros que têm que se calar e fugir do "homem", o governo militar; "bico calado, toma cuidado, o homem vem aí"; você também pode interpretar como uma música ambientalista, se quiser.

9. Basta um Dia - foi composta para a peça Gota D'água, escrita por Paulo Pontes e o próprio Chico em 1975; a peça trata de uma tragédia urbana passada em um favela e a música retrata bem os sentimentos desses personagens.

10. Meu Caro Amigo - é uma "carta" para Augusto Boal, exilado político na época; é extremamente crítica, conta das dificuldades da vida marcada pela ditadura militar; foi composta com Francis Hime; só por curiosidade, ele cita a Marieta Severo no final da canção; é minha música favorita desse álbum.

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