07/09/2011

Educação Ambiental Não é Solução

Como muitos de vocês devem saber, eu curso Engenharia Ambiental. Estou no quarto período (segundo ano) agora. Desde muito antes de me decidir por esse curso, já me interessava pelas questões do meio ambiente e do manejo responsável dos recursos naturais. Vocês já devem ter notado alguns posts a respeito por aqui. Mas não é sobre isso (exatamente) que eu vim falar-lhes hoje.

Eu sei que o título é polêmico. Mas não fujam! Vou explicar melhor.

Logo no primeiro ano de faculdade, uma das minhas professoras disse algo que, no momento, me pareceu meio impensado, meio maluco e um tanto incoerente para uma bióloga. Algo do tipo "educação ambiental não vira nada". Algum tempo depois, refletindo bem, acho que ela só formulou mal a frase.

fonte: mother earth, father sky
Foi-se a época em que a ingenuidade e uma certa falta de conhecimento (ou visão) me faziam acreditar que a educação ambiental era a chave para a solução dos problemas ambientais ou o desenvolvimento sustentável. Há quem creia que ela seja suficiente. Há quem acredite que a conscientização das pessoas seja o suficiente para desencadear tudo aquilo que achamos fundamental para um ambiente sadio - correta exploração dos recursos naturais, emissão controlada de poluição, produção limpa, tratamento de resíduos, reciclagem, recuperação de áreas degradadas, preservação, etc. Porque acreditam que essas pessoas pressionariam governos e empresas a tomar uma atitude. Mas seria essa pressão eficiente? Às vezes, ela é, mas nem sempre. Além do mais, essa pressão pode não acarretar em medidas ecologicamente corretas, mas sim em uma suposta responsabilidade ambiental que, na prática, não existe. Já ouviram falar de greenwashing?

Cheguei a imaginar uma situação hipotética (e impossível) em que todos - sem exceção - estivessem conscientes. Ainda assim, acho que não seria suficiente. A consciência não garante uma mudança de comportamento. Quanta informação não temos aí, sendo veiculada? A mudança de comportamento é proporcional? É claro que não.

A educação ambiental tem grande importância, é claro. Mas não é e nunca será suficiente. O grau de alteração dos ambientes naturais é tão grande, e as relações homem-natureza são tão (cada vez mais) complexas que é um grande erro pensar em uma solução tão aparentemente simples. E é um erro ainda maior pensar que eu, pobre de mim, possa fazer uma grande diferença. Não posso. Quem detém o poder de promover mudanças significativas são, e sempre serão, os governos e as grandes empresas.

São Paulo, SP - fonte: Máfia do Lixo
Vamos analisar um exemplo: o "lixo". De que adianta eu separar o material reciclável do não-reciclável, se não há quem o recolha separadamente? De que adianta que alguém recolha o lixo reciclável se não houver uma central de triagem? De que adianta haver essa triagem se não há quem recicle os diferentes materiais separados? De que adianta reciclar dado material se não há quem o compre e use como matéria prima? Está aí: o governo precisa recolher o lixo reciclável, levá-lo para uma central de triagem, reciclá-lo. As empresas precisam comprar essa matéria-prima reciclada. É necessária uma infraestrutura gigantesca para que esse lixo seja reciclado, e que esse material seja reutilizado. É preciso investimento: em dinheiro, em mão de obra qualificada, em força de vontade!

E olha que nem falamos do resíduo não reciclável, da infraestrutura necessária para dispor esse tipo de material. Vocês não imaginam a dificuldade em se projetar um aterro sanitário digno, e do investimento para criá-lo e mantê-lo. (Nem eu, neste ponto do meu curso, tenho uma noção precisa da dimensão da coisa.) O que podemos fazer? Separar, reduzir, reutilizar, fazer uma composteira? Se todos fizéssemos isso o problema estaria resolvido? Claro que não. (Também não comentamos do lixo eletrônico, dos resíduos perigosos, do lixo que provém das fábricas, usinas, empresas, hospitais, prédios públicos, obras...)

Viu como o problema está fora do nosso alcance? Eu, como futura engenheira ambiental, me confesso frustradíssima com a minha impotência diante da deterioração do meio ambiente. E você ainda acredita que a educação ambiental é suficiente? Eu poderia dar outros exemplos aqui. Vários outros. Mas não acho necessário, creio ter explicado razoavelmente bem minha opinião. E creio que vocês vão entendê-la.

Japão - fonte: Coletivo Verde
Não desacredito na educação ambiental. Ela é muito importante, é um complemento a todas as medidas que podem ser tomadas pelos detentores do poder. Voltemos ao nosso problema do "lixo". Se houver toda a infraestrutura para triagem e reciclagem, é necessário que a população separe o lixo. Ainda mais, é importante que elas saibam o porquê de estarem fazendo isso. Também é fundamental que haja quem compre os produtos feitos com matéria-prima reciclada. Mas mesmo aqui, onde a educação ambiental é necessária, os detentores de poder têm grande importância. O governo deve incentivar e facilitar a separação do materia, como, por exemplo, ocorre nessas cidades em que há containers a cada um ou dois quarteirões, específicos para cada tipo de lixo. As empresas também podem reciclar suas próprias embalagens, dando aos consumidores a opção de devolvê-las após o uso, e até mesmo incentivando esse comportamento. E se precisamos de consumidores para os produtos feitos com matéria-prima reciclada, publicitários, geralmente, dão conta o recado. Eles têm talento nessa coisa de manufaturar a demanda.

Não quero por meio desse post, desincentivá-los a ter uma postura correta. PELAMORDEDEUS, não me levem a mal. Comportem-se bonitinhos, ok? A educação ambiental não é solução por si só, mas é importantíssima. Eu costumo dizer que tudo é válido, de alguma forma ou de outra, nem que seja para nos fazer bem, fazer-nos sentir útil, com o dever cumprido ou qualquer coisa assim. Até porque, muitas atitudes sustentáveis estão ligadas também a maior bem estar, melhor qualidade de vida e até economia de dinheiro. Vale a pena ser ecofriendly. Só gostaria de desmistificar a educação ambiental, trazer uma visão um pouco mais amadurecida da questão ambiental, um pouco da complexidade do problema. Novamente: a educação ambiental é uma parte muito importante da solução, mas sozinha, infelizmente, ela não dá conta do problema.
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