26/09/2009


Ela chegava, todos os dias, com um vestido florido, mocassins, guarda-chuva, bolsa e uma florzinha cor de laranja na mão. Colocava o guarda-chuva em pé num cantinho da cozinha e a bolsa em cima da mesa. Me entregava a flor. Depois, trocava os mocassins por chinelos e o vestido florido por um vestido azul listrado de branco. E passava as tardes com a gente.

Ela contava sempre as mesmas piadas e nós sempre ríamos. Chamava meu avô de velho excomungado. Gostava de ganhar flores. Era carente e fazia um draaaaama! Mas fazia todo mundo ficar junto. Ela cozinhava terrivelmente mal. Sempre prendia minha franja com um grampo ("pra não ficar caolha com cabelo no olho"). Ou prendia meu cabelo todo num coque ou numa trança. Ah, como ela gostava do meu cabelo! Contava pra todo mundo que sua neta, a filha da Rosana, tinha o cabelo anelado, como ela tinha quando era mais nova. Ela tinha um orgulho inexplicável de mim. Me entendia, mesmo não concordando. Gostava de me ouvir falando das coisas que eu aprendia na escola. Sua voz era rouca e doce. E, quando a gente colocava uma música, ela cantava outra completamente diferente ao mesmo tempo.

Ela me deu o abraço mais gostoso do mundo antes de nos deixar. Mas até hoje, ela ralha comigo, prende meu cabelo e sai cantando com seu vestido florido nos meus pensamentos. E eu posso sempre encontrar um pouquinho dela em mim e na minha mãe.

[comentários perdidos na mudança no Haloscan no final de 2009]